Incandescência

Sabotage (foto de Murilo Meirelles)

Mauro Mateus dos Santos, o rapper Sabotage, foi morto com quatro tiros de uma pistola 380 mm em janeiro de 2003, aos 29 anos. Viveu a maior parte deles na favela do Canão, no Brooklin paulistano. Em uma entrevista dada semanas antes de sua morte, disse que a música “O meu guri”, de Chico Buarque, era um retrato de sua vida no morro. “Chega suado e veloz do batente, traz sempre um presente pra me encabular. Tanta corrente de ouro, seu moço, que haja pescoço pra enfiar. Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro: chave, caderneta, terço e patuá”.

Há lugares em que a infância termina assim que se aprende a correr. Na favela do Canão, Sabota – também chamado de Maurinho – começou a trabalhar no tráfico aos oito anos de idade, encaminhado pelo tio José Izabel da Silva Filho. Até a desativação do Carandiru em 2002, José Izabel, o Monarca, cumpriu pena no presídio da zona norte por 27 anos. Continuou detido até 2005, no interior de São Paulo, quando entrou em regime de liberdade condicional (o que determinou que ele deve comparecer mensalmente ao Conselho Penitenciário até março de 2026). Depois de deixar a prisão, o tio de Sabotage passou a vender água em um semáforo ao lado do aeroporto de Congonhas. Se estiver vivo, Monarca está com 62 anos.

Na adolescência, Sabota subia correndo as vielas da favela do Canão quando a polícia aparecia. Escondia armas e drogas, entrava no barraco onde morava com o pai – que só fora conhecer aos 15 anos – e trocava a camisa para despistar os PMs. A mãe, Ivonete, havia morrido quando ele era criança. Um de seus dois irmãos mais velhos, Déda, foi assassinado no começo dos anos noventa: foi ele quem deu o apelido ao caçula. Assim, sobrevivendo e sonhando, depois de duas detenções na Febem, Sabotage chegou a montar uma pequena boca.

A comunidade do Canão e a avenida que lhe dá acesso, a Águas Espraiadas (hoje, chamada de Avenida Roberto Marinho), são citadas em várias letras do rapper. Quando gravou a música “Canão foi tão bom”, um dia antes de ser assassinado, Sabotage já estava morando na favela do Boqueirão, no Ipiranga. Ele era, então, um dos nomes mais conhecidos do rap nacional e dizia estar fora do tráfico desde os 19 anos.

“Quando eu for falar com Deus, sei que ele vai dizer: ‘Olha, vi você na Águas Espraiadas, você melhorou a vida daquele povão. Vai ficar dez minutos no purgatório e pode ir para o céu’”. A frase é de Paulo Maluf e foi dita no discurso de inauguração da avenida, em 1996, quando era prefeito da cidade. O orçamento da obra foi considerado superfaturado, o que levou à quebra do sigilo bancário do ex-prefeito. Em maio deste ano, por ordem judicial, os cofres municipais receberam o repasse de cerca de R$ 4,5 milhões de empresas ligadas a Maluf, montante originário do superfaturamento da construção da avenida.

Ilustração de Alexandre De Maio para o documentário Maestro do Canão

Quando morava na favela do Canão, Sabota descia até a Águas Espraiadas, muitas vezes, com o revólver escondido na cintura. Outras tantas vezes passava pela avenida com a cabeça adornada por trancinhas levantadas e com muitas ideias para compor suas músicas. Seu trabalho lhe rendeu os álbuns O rap é compromisso e, postumamente, Uma luz que nunca irá se apagar. Depois de sua morte, Sabotage virou tema de biografia e de documentário. Deve ganhar, ainda, mais um álbum com material que deixou gravado e um filme de ficção.

Sabota já foi, ele próprio, ator no cinema. Estreou com Beto Brant em O Invasor, de 2001, onde atuou ao lado de Mariana Ximenes e do titã Paulo Miklos. Em Carandiru, lançado meses após sua morte em 2003, ele interpreta o presidiário que beija o bumbum de Rita Cadilac na apresentação que a dançarina faz para os detentos (seu tio, Monarca, inspirou de uma só vez três personagens do filme de Hector Babenco).

Dez anos depois da morte de Maurinho – assassinado pouco a pouco pela pobreza e de forma derradeira pelos quatro tiros –, a pequena comunidade do Canão tem um muro onde se lê “Sabotage eterno”. O samba “O meu guri”, em cuja letra ele se reconhecia, diz ainda: “Desde o começo eu não disse, seu moço? Ele disse que chegava lá”. Se quando morremos Deus decreta a nossa sentença, como acredita Paulo Maluf, não sabemos qual foi a de Sabotage. Aqui na terra seu rap segue sendo uma lâmpada a tentar, persistentemente, iluminar o purgatório da vida.